Toda clínica com mais de um dentista cedo ou tarde esbarra na mesma conta chata: quanto cada profissional recebe no fim do mês. Parece simples, mas é onde mais se perde dinheiro e paciência. Aqui você vê os modelos de comissão usados no Brasil, o erro de cálculo que silenciosamente quebra o caixa e um passo a passo com números reais para fechar o repasse certo.

O que é a comissão do dentista e por que ela dá trabalho
Comissão, ou repasse, é a forma de remunerar o dentista pelos procedimentos que ele realiza na clínica de outro dono, sem que necessariamente exista vínculo de emprego. Quando há só um profissional, isso nem aparece. A partir do segundo dentista, vira uma das tarefas mais delicadas da gestão.
Na maioria das clínicas, esse cálculo ainda mora numa planilha paralela montada no fim do mês, cruzando na mão quem fez o quê, quanto entrou, o percentual de cada um e o que já foi pago. Esse processo manual carrega três riscos:
- Erro de conta: uma célula errada vira pagamento a menos, e o dentista fica insatisfeito, ou a mais, e a clínica tem prejuízo.
- Falta de rastro: quando o profissional pergunta de onde saiu aquele valor, não há um extrato confiável atendimento por atendimento.
- Tempo perdido: horas de fechamento manual, todo mês, que poderiam estar na cadeira.
Os modelos de comissão mais usados no Brasil
Antes do cálculo, vem a escolha do modelo. Os mais comuns são:
- Por procedimento: um percentual (ou valor) para cada procedimento realizado. É o formato mais usado e o mais justo quando os tratamentos têm custos bem diferentes.
- Por produtividade ou faturamento: um percentual sobre tudo o que o dentista gerou no período.
- Por diária ou por hora: um valor fixo por dia ou hora de atendimento, independentemente do número de pacientes.
- Base fixa mais comissão: um valor garantido somado a um percentual por atendimento.
Sobre o percentual em si, as faixas mais citadas no mercado ficam entre 30% e 50% do procedimento, com vários materiais apontando uma média em torno de 30%. Use isso só como referência, nunca como regra: o número certo depende do custo da sua hora de cadeira, da especialidade, da forma de pagamento e de quem traz o paciente.
O erro que quebra o caixa: produzido x recebido
Esta é a parte que mais derruba clínica, e quase ninguém explica com número. Existe uma diferença enorme entre:
- Produzido: o valor total do tratamento no momento em que o procedimento termina, mesmo que o paciente ainda vá pagar parcelado.
- Recebido: o valor que de fato entrou no caixa naquele mês.
Imagine um tratamento de R$ 850 parcelado em 5x de R$ 170, com comissão de 30%. Se a clínica paga sobre o produzido assim que o procedimento acaba, ela repassa R$ 255 ao dentista tendo recebido apenas R$ 170 da primeira parcela. Multiplique isso por vários tratamentos no mês e o caixa fica no vermelho só de pagar comissão. E se o paciente parar de pagar na segunda parcela, a clínica já adiantou comissão sobre dinheiro que talvez nunca entre.
Comissione sobre o que entrou, não sobre o que foi prometido
A prática que protege o caixa é vincular o repasse ao recebimento: cada parcela que o paciente paga gera a sua fatia de comissão. Assim o dentista é remunerado na mesma medida em que o dinheiro chega, e a inadimplência de um paciente não vira prejuízo de comissão.
Considere os custos antes de definir o percentual
Aplicar a comissão sobre o preço cheio, sem olhar os custos do procedimento, é o segundo erro mais caro. Procedimentos diferentes deixam margens muito diferentes:
- Material de consumo e, principalmente, o laboratório de prótese, que sai inteiro da clínica para o protético.
- Taxa de cartão e parcelamento, que costuma comer de 3% a 8% do valor, podendo passar disso com antecipação.
- Impostos, conforme o regime tributário da clínica.
Veja um implante unitário de R$ 4.500 com R$ 900 de componente, R$ 700 de laboratório e cerca de R$ 225 de taxa de cartão, ou seja, R$ 1.825 de custos diretos. Se a clínica comissionar 40% sobre o valor cheio, o repasse é R$ 1.800, e depois de pagar os custos sobram só R$ 875 para a clínica. O mesmo percentual numa limpeza, que quase não tem insumo, deixaria uma margem completamente diferente.
O percentual é o seu termômetro de custo
A saída prática não é fazer uma conta nova a cada atendimento, e sim embutir o custo no percentual de cada procedimento: o implante, com material e protético caros, recebe um percentual menor; a limpeza, um percentual maior. É por isso que comissão por procedimento costuma funcionar melhor do que um percentual único para tudo.
Percentual único ou por procedimento?
O percentual único é simples de configurar e funciona para quem faz poucos tipos de tratamento. Mas, pelo que vimos acima, ele ignora que cada procedimento tem um custo. Definir percentuais por procedimento (e, se precisar, por dentista) é o que mantém a margem saudável sem você ter que recalcular nada na mão.
Exemplo completo: calculando um repasse passo a passo
Vamos a um caso concreto. O Dr. João fez, para um paciente, um orçamento de R$ 1.000:
| Procedimento | Valor | Regra | Comissão |
|---|---|---|---|
| Limpeza | R$ 200 | 40% | R$ 80 |
| Clareamento | R$ 800 | 50% | R$ 400 |
| Total, se o paciente paga tudo | R$ 1.000 | — | R$ 480 |
Repare que não existe um percentual único: cada procedimento entrou com a sua regra. Agora, o ponto que separa o cálculo certo do errado. Suponha que o paciente pague só R$ 500 agora. O correto não é aplicar um percentual sobre os R$ 500, e sim ratear o pagamento entre os itens, na proporção de cada um, e aplicar a regra certa em cada fatia:
| Procedimento | Recebido (rateio) | Regra | Comissão |
|---|---|---|---|
| Limpeza | R$ 100 | 40% | R$ 40 |
| Clareamento | R$ 400 | 50% | R$ 200 |
| Comissão desta parcela | R$ 500 | — | R$ 240 |
Quando o paciente pagar os outros R$ 500, o restante da comissão é gerado. No fim, o Dr. João recebe os mesmos R$ 480, só que no ritmo em que o dinheiro entrou. Fazer esse rateio na planilha, parcela por parcela, é justamente o que vira fonte de erro.
Os erros mais comuns na planilha de comissão
- Pagar sobre o produzido e adiantar comissão de dinheiro parcelado.
- Aplicar o percentual no valor cheio, esquecendo material e laboratório.
- Ignorar a taxa de cartão e os impostos ao definir a margem.
- Errar uma fórmula ou sobrescrever uma célula sem perceber.
- Pagar comissão de um tratamento que foi cancelado ou estornado.
- Não ter contrato de parceria por escrito, abrindo brecha para disputa.
Como o Smileo calcula a comissão sozinho
O Smileo foi feito para tirar esse cálculo da planilha. Você define as regras uma vez e o sistema cuida do resto, a cada pagamento:

- Regras flexíveis: percentual geral, por dentista, por procedimento ou por dentista e procedimento juntos. A regra mais específica sempre vence a mais geral.
- Sobre o que entrou no caixa: a comissão nasce do pagamento recebido, não do orçamento aprovado. Pagamento parcelado gera a comissão parcela por parcela.
- Rateio automático por procedimento: quando um pagamento cobre vários itens, o sistema divide o valor entre eles e aplica a regra certa em cada fatia, fechando até o último centavo.
- Estorno que se desfaz sozinho: se um pagamento é cancelado, a comissão dele é revertida automaticamente, e o extrato continua batendo com o caixa.
- Transparência com privacidade: cada dentista vê o próprio extrato, atendimento por atendimento, sem enxergar o dos colegas. A recepção não acessa comissão.
- Fechamento e repasse com prova: no fim do mês você fecha, registra o pagamento de cada dentista com data e comprovante anexado, e tudo fica na trilha de auditoria.

O módulo de comissões está disponível a partir do plano Clínica, que é onde começa a fazer sentido, quando há mais de um profissional na operação.
Perguntas frequentes
Qual a porcentagem de comissão de um dentista?
Não existe um número único. As faixas mais citadas no mercado brasileiro ficam entre 30% e 50% do valor do procedimento, variando conforme a especialidade, a forma de pagamento, o custo da clínica e quem capta o paciente. O ideal é definir o seu percentual a partir do custo real da sua hora de cadeira, não copiando o concorrente.
A comissão deve ser calculada sobre o valor produzido ou o recebido?
Sobre o recebido. Calcular sobre o produzido (o valor cheio do tratamento assim que ele termina) faz a clínica repassar comissão sobre dinheiro que ainda não entrou, sobretudo em tratamentos parcelados, o que desequilibra o caixa e expõe à inadimplência. Comissionar conforme o paciente paga protege o fluxo de caixa.
Preciso descontar material e laboratório antes de calcular a comissão?
É a prática mais saudável, porque material e laboratório de prótese são custos diretos que saem inteiros da clínica. Uma forma simples de embutir isso é usar percentuais diferentes por procedimento: um implante, que tem material e protético caros, recebe um percentual menor que uma limpeza, que quase não tem insumo.
O dentista comissionado precisa ser PJ ou autônomo?
Os dois formatos existem. O autônomo emite RPA a cada repasse; o PJ costuma abrir uma sociedade unipessoal e emitir nota, em geral pagando menos imposto. A escolha tem efeitos tributários e trabalhistas, então vale definir com contador e advogado, com contrato de parceria por escrito.
O essencial em uma frase
Defina o percentual olhando para o seu custo, comissione sobre o que o paciente realmente pagou e mantenha um extrato que qualquer dentista possa conferir. O resto, um bom sistema faz por você.