A paciente marcou Sim em "usa algum medicamento de uso contínuo?", ninguém perguntou qual, e a ficha foi para a gaveta. Três meses depois, na hora da extração, ela comenta que toma um remédio para afinar o sangue desde a cirurgia do coração. O Sim estava ali o tempo todo. Faltou a pergunta seguinte.
A anamnese odontológica precisa responder a quatro coisas antes do atendimento: que remédios o paciente usa e em que dose, a que ele tem alergia, que doenças mudam a conduta (pressão, diabetes, coração, sangramento, gestação, câncer) e qual é a queixa que o trouxe. Toda resposta Sim precisa vir com o detalhe, a ficha precisa ser revisada pelo dentista antes de começar e atualizada a cada retorno, sem apagar a versão anterior.

O que é a anamnese odontológica e por que ela é obrigatória?
Anamnese é a entrevista sobre a saúde do paciente feita antes do exame e do tratamento: doenças, remédios, alergias, hábitos e o motivo da consulta. Na odontologia ela é parte do prontuário, e o prontuário é obrigação ética. O Código de Ética Odontológica (Resolução CFO-118/2012, artigo 17) manda elaborar e manter o prontuário legível e atualizado, com os dados clínicos necessários para a boa condução do caso.
Na prática, a anamnese serve a duas pessoas. Ao paciente, porque evita a reação alérgica, o sangramento e a interação de remédio que eram previsíveis. Ao dentista, porque é o registro do que ele sabia no dia do atendimento, e é esse registro que conta se algum dia houver questionamento.
Quais perguntas não podem faltar?
São as que mudam a conduta. A tabela resume o motivo clínico de cada uma, como orientação geral: a decisão sobre o caso é sempre do dentista, e muitas vezes em conjunto com o médico do paciente.
Usa algum medicamento de uso contínuo? Qual e em que dose?
- Por que importa
- Anticoagulantes e antiagregantes aumentam o sangramento em extração e cirurgia. Bisfosfonatos e outros antirreabsortivos elevam o risco de osteonecrose dos maxilares depois de procedimento invasivo. E todo remédio contínuo entra na conta de interação com o que o dentista vai prescrever.
Tem alguma alergia? A quê?
- Por que importa
- Penicilina, anti-inflamatório, AAS, látex e anestésico local são as que mudam a conduta: definem o antibiótico, o analgésico e até a luva.
Já teve reação ao receber anestesia?
- Por que importa
- Separar reação de verdade de mal-estar ou susto muda a escolha do anestésico e a forma de conduzir a consulta.
Tem pressão alta?
- Por que importa
- Pede aferição da pressão antes do procedimento e cuidado na escolha do anestésico com vasoconstritor.
Tem diabetes?
- Por que importa
- Interfere na cicatrização e no risco de infecção. O horário da consulta e a alimentação antes dela ajudam a evitar hipoglicemia na cadeira.
Tem problema no coração? Válvula, prótese valvar, já teve endocardite?
- Por que importa
- Alguns desses casos pedem profilaxia antibiótica antes de procedimentos com sangramento, decidida com o médico que acompanha o paciente.
Já teve sangramento difícil de parar ou alguma alteração no sangue?
- Por que importa
- Sinaliza risco de hemorragia mesmo em quem não toma anticoagulante.
Está grávida ou amamentando?
- Por que importa
- Muda o momento ideal do tratamento, o uso de radiografia e a escolha de medicamentos.
Já fez tratamento de câncer, principalmente radioterapia na cabeça ou no pescoço?
- Por que importa
- A radioterapia na região aumenta o risco de complicação em extração, e o planejamento precisa levar isso em conta.
Fuma? Range os dentes?
- Por que importa
- Fumo atrasa a cicatrização e pesa em implante e em doença periodontal. Bruxismo muda o planejamento de restauração e prótese.
Por que um Sim sem detalhe não serve?
Porque o Sim só diz que existe algo a saber. "Tem alergia? Sim" não diz se é a penicilina que você ia receitar ou a poeira de casa. "Usa medicamento? Sim" não diz se é um anticoagulante ou uma vitamina. A ficha que para no Sim obriga o dentista a lembrar de perguntar de novo, e é exatamente esse lembrete que falha no dia corrido.
A regra simples é: toda pergunta que pode mudar a conduta leva um campo "qual?" logo abaixo, que aparece quando o paciente marca Sim. O campo pode ser opcional, porque às vezes o paciente não lembra o nome do remédio, mas precisa estar ali para ser preenchido.
O caminho de um Sim
- 1
A pergunta
Usa algum medicamento de uso contínuo?
- 2
O Sim com detalhe
Sim. Qual? Varfarina, 5 mg por dia.
- 3
O alerta na ficha
O dado aparece no topo, antes de qualquer outra coisa.
- 4
A conduta
O dentista planeja a extração sabendo do anticoagulante.
Modelo de ficha de anamnese odontológica para copiar
O modelo abaixo cobre a clínica geral. Copie, ajuste à sua especialidade e use no papel ou no sistema. Nas perguntas de saúde, as opções são Sim, Não e Não sei, e todo Sim abre o "qual?".
1. Identificação
- Nome completo e data de nascimento
- Telefone e contato para emergência
- Médico que acompanha, se houver
- Responsável legal, se for menor de idade
2. Motivo da consulta
- O que trouxe você aqui hoje? (queixa principal)
- Sente dor nos dentes ou na boca? Onde e desde quando?
3. Saúde geral (Sim / Não / Não sei, e qual)
- Está em tratamento médico? Qual?
- Tem pressão alta?
- Tem diabetes?
- Tem problema no coração, válvula ou prótese valvar? Já teve endocardite?
- Tem asma ou outra doença respiratória?
- Tem problema no fígado ou nos rins?
- Já teve sangramento difícil de parar ou alguma alteração no sangue?
- Tem alguma alteração nos ossos? Faz ou fez tratamento para osteoporose?
- Já teve câncer? Fez radioterapia ou quimioterapia?
- Tem alguma doença transmissível? (HIV, hepatite, outra)
- Já foi internado ou fez cirurgia? Quando e por quê?
- Tem ou teve depressão, ansiedade ou outro acompanhamento psicológico?
4. Medicamentos e alergias
- Usa algum medicamento de uso contínuo? Qual e em que dose?
- Tem alguma alergia? A quê? (penicilina, anti-inflamatório, AAS, látex, outra)
- Já teve alguma reação ao receber anestesia?
5. Para pacientes mulheres
- Está grávida? De quantas semanas?
- Está amamentando?
6. Hábitos
- Fuma? Quanto por dia?
- Bebe álcool com frequência?
- Range ou aperta os dentes?
- Quantas vezes por dia escova os dentes? Usa fio dental?
7. Histórico odontológico
- Quando foi a última consulta com dentista?
- A gengiva sangra ao escovar?
- Tem sensibilidade ao frio ou ao quente?
- Já teve alguma experiência ruim no dentista? Tem medo?
8. Preenchido pelo dentista
- Pressão arterial
- Frequência cardíaca
- Observações da revisão com o paciente
9. Declaração
- Declaro que as informações acima são verdadeiras e que vou avisar o consultório se alguma mudar.
- Data e assinatura do paciente ou do responsável
Não sei não é Não
Deixe a opção Não sei no formulário e trate cada uma como pergunta em aberto. Quando a dúvida pode mudar a conduta, peça o nome do remédio, a receita ou um contato com o médico antes do procedimento.
Papel na recepção ou link antes da consulta?
Os dois funcionam, desde que o paciente responda com calma e o dentista revise. A diferença está no que cada um facilita:
Quando responde
- Papel na recepção
- Nos minutos antes de ser chamado
- Link antes da consulta
- Em casa, no dia que quiser
Nome do remédio
- Papel na recepção
- Muitas vezes esquecido
- Link antes da consulta
- Dá para pegar a caixa e copiar
Letra
- Papel na recepção
- Depende de quem escreve
- Link antes da consulta
- Sempre legível
Atualização
- Papel na recepção
- Folha nova ou rasura na antiga
- Link antes da consulta
- Versão nova, a antiga fica guardada
Guarda
- Papel na recepção
- Arquivo físico por 20 anos
- Link antes da consulta
- Junto do prontuário digital
Quando atualizar a anamnese?
- A cada retorno depois de um intervalo longo, como na consulta de revisão.
- Antes de qualquer procedimento invasivo, mesmo que a última seja recente.
- Sempre que o paciente contar que mudou algo: remédio novo, cirurgia, gestação, diagnóstico.
A versão antiga não se apaga. Ela mostra o que o dentista sabia no dia de cada atendimento, e é isso que protege os dois lados. Os prazos de guarda do prontuário, que valem também para a anamnese, estão no guia sobre prontuário, consentimento e atestado.
Anamnese é dado de saúde
Pela LGPD (Lei 13.709/2018), informação de saúde é dado pessoal sensível. A ficha não pode ficar exposta no balcão nem circular por WhatsApp pessoal da equipe, e só quem atende o paciente deve ter acesso a ela.
Como implantar em 4 passos
- Escolha o modelo e ajuste à sua prática. Comece pelo modelo acima e tire ou acrescente o que faz sentido para a sua especialidade. Quem faz implante, por exemplo, precisa ser mais detalhista em osteoporose e fumo.
- Decida quando o paciente responde. Antes da consulta, por um link no celular, ou na recepção, no papel ou num tablet. O importante é que ele responda com calma, e não na cadeira, de boca aberta.
- Revise antes de sentar o paciente. Leia todos os Sim e os detalhes. Pergunte o que ficou vago, confirme o nome dos remédios e anote os sinais vitais.
- Atualize a cada retorno, sem apagar a anterior. Uma pergunta basta para abrir: mudou alguma coisa na sua saúde desde a última vez? Se mudou, uma nova versão com a data de hoje.
Como o Smileo faz a anamnese
- Modelo pronto para começar, que a clínica edita em Configurações, com perguntas de Sim, Não e Não sei, e perguntas abertas.
- Detalhe no Sim. Em cada pergunta dá para ligar "pedir detalhe quando marcar Sim" e escrever o que perguntar, como "qual medicamento?". O campo só aparece no Sim.
- Link pelo WhatsApp. A clínica manda o link com um clique, o paciente responde no celular sem instalar nada, e a resposta entra direto na ficha. Também dá para preencher na própria clínica.
- Alertas clínicos em destaque. As respostas que pedem atenção, como alergia e medicamento, aparecem separadas no topo, antes do resto da ficha.
- Versões guardadas. Cada nova anamnese vira uma versão com data, e as anteriores continuam abrindo.
O envio do link usa o mesmo WhatsApp da confirmação de consulta, explicado no guia de confirmação de consulta por WhatsApp. E para quem atende sozinho, o que o sistema inclui está na página do dentista autônomo.
Perguntas frequentes
A anamnese odontológica é obrigatória?
Sim. A anamnese faz parte do prontuário, e o Código de Ética Odontológica (Resolução CFO-118/2012, artigo 17) obriga o cirurgião-dentista a elaborar e manter o prontuário legível e atualizado, com os dados clínicos necessários para a boa condução do caso. Sem a história de saúde do paciente, o prontuário fica incompleto justamente na parte que protege o paciente e o profissional.
Quem preenche a anamnese, o paciente ou o dentista?
O paciente responde, ou o responsável legal no caso de menor de idade, e o dentista revisa antes de começar o atendimento. A revisão é a parte que não pode ser pulada: é nela que o dentista pergunta o que ficou vago, confirma os detalhes de cada resposta Sim e anota os sinais vitais que ele mesmo mediu.
De quanto em quanto tempo a anamnese deve ser atualizada?
A cada retorno depois de um intervalo longo, antes de qualquer procedimento invasivo e sempre que o paciente contar que mudou algo: remédio novo, cirurgia, gestação, diagnóstico. A versão antiga não deve ser apagada. O ideal é guardar cada versão com a data em que foi respondida, porque é ela que mostra o que o dentista sabia no dia do atendimento.
Anamnese digital tem o mesmo valor que a de papel?
Pode ter, desde que o registro seja confiável. A Lei 13.787/2018 trata da guarda do prontuário em meio digital, e o que dá valor à ficha é conseguir provar quem respondeu, quando respondeu e que o conteúdo não foi alterado depois. Um sistema que guarda cada versão com data e registra quem acessou cumpre esse papel melhor do que uma folha solta no arquivo.
O que fazer quando o paciente marca Não sei?
Tratar como uma pergunta em aberto, não como um Não. O dentista conversa na cadeira, e quando a dúvida pode mudar a conduta, como uso de anticoagulante ou problema cardíaco, o caminho é pedir o nome do remédio, a receita ou um contato com o médico que acompanha o paciente antes do procedimento.
Paciente com doença transmissível precisa ser atendido de outro jeito?
A biossegurança é a mesma para todos os pacientes, porque ninguém sabe tudo sobre a própria saúde. A pergunta existe na anamnese para a condução clínica do caso, como interação de medicamentos e cicatrização, e a resposta é dado de saúde sigiloso, que só quem atende deve ver.
O essencial em uma frase
Uma boa anamnese pergunta o que muda a conduta, exige o detalhe de cada Sim, passa pelos olhos do dentista antes do atendimento e ganha uma versão nova a cada retorno.